Macrofotografia sem tripé... porque não?


Colónia de pulgões e formigas
Nikon D300 + Micro Nikkor 60mm + PK-13 + SB-900 (c/mini Softbox): @ 1/100 seg. (+0,3 Ev), f/11, ISO 1250


À primeira vista pode parecer um contra-senso querer fazer macrofotografia (com relações de reprodução superiores a 1:1) sem recurso a um bom sistema de estabilização e, de certa forma, até é... Não obstante, fazendo uso de alguns "truques", não é impossível, sendo simplista, deixar o tripé em casa e fotografar desse modo.
Como ainda há uns dias atrás no Facebook "alguém"... :) questionava acerca de como proceder para fotografar assim, lembrei-me de contar como costumo fotografar nessas circunstâncias e, então, cá vai...
Escolhi esta fotografia*, como exemplo, para falar acerca de como fazer macrofotografia sem usar tripé pelo motivo de ser pouco provável que se tente fotografar, nestas condições, objectos mais pequenos que formigas ou, até, pulgões que chegam a ter somente o tamanho equivalente à cabeça das primeiras.
Bom, na verdade não existe segredo nenhum... basta pensarmos um pouco nalgumas regras básicas para obter fotos nítidas:


 Primeiro ponto:  Desde logo, o mais importante para evitar fotos tremidas (ou desfocadas): Velocidade! Sim, velocidade de obturação!
Como se consegue isso quando estamos a usar aberturas pequenas (f/11) e ainda por cima diminuímos a luz que chega até ao sensor ao acoplarmos na objectiva um tubo de extensão?
Fácil, subindo o valor se sensibilidade (ISO)! Ao aumentar o valor ISO estamos a aumentar o valor de sensibilidade de filme o que significa que, para obtermos uma correcta exposição de luz, precisamos dum menor tempo de exposição. Ou seja, a velocidade de obturação vai ser mais rápida. Desse modo evita-se uma exposição demorada o que, segurando a câmara à mão, tornaria de certo as fotos tremidas.

 Ponto dois:  Luz! Luz! Luz! ...Traduzindo, utilizar Flash! O flash contribuirá também para congelar mais facilmente a acção porquanto equilibra a iluminação nas zonas mais escuras (sombras) e, por consequência, ajuda a aumentar o valor de velocidade de obturação.
Claro que a velocidade de sincronização não deve estar limitada aos tradicionais 1/60 seg.... Deve ser usada a função de sincronização de alta velocidade do flash (via regulação na câmara e/ou flash). Assim independentemente da abertura de diafragma escolhida e valor ISO, o clarão do flash será sincronizado com a velocidade de obturação definida pela câmara.

 Ponto três:  Mesmo não tendo tripé devemos tentar estabilizar ao máximo o conjunto câmara/objectiva. O nosso próprio corpo servirá de suporte... por exemplo, caso estejamos a fotografar aninhados, apoiar o cotovelo que sustenta a câmara no joelho será á uma boa ajuda. Outra será apoiar a câmara e a mão que usamos para a segurar contra a nossa face.

 Ponto quatro:  Precisão! No momento que vamos "disparar" se sustermos a respiração oscilaremos menos a nossa mão e as fotos sairão melhores. O dedo que carrega no botão obturação não deve "tomar lanço" para fotografar. Deve estar colocado em cima do botão e pressioná-lo no momento da obturação de forma suave sem impulsos bruscos.

 Ponto cinco:  Utilizar a opção de disparo "Modo contínuo" de 3, 5, 8,... fotos por segundo ajuda e muito.
Como só por pequenas fracções de segundo se consegue uma focagem correcta, usando esta opção de disparo é mais fácil que, durante o pequeno movimento que a câmara fez, uma das fotos se destaque e seja mais nítida que as outras...

 Ponto seis:  Focar com o nosso corpo! Sim, esqueçamos a focagem automática ou mesmo manual através do anel da objectiva.
É muito mais prático (e eficaz) fixar a focagem da objectiva (manualmente) num determinado ponto (que permita a ampliação que queremos) e focar o objecto movendo o nosso corpo, designadamente, afastando ou aproximando a nossa face (juntamente com a câmara, claro) do objecto que estamos a fotografar.

Depois, o resto vem com algum treino e tentativas...

(*) E, (já agora) porque associada a cada fotografia pode estar também uma estória, aproveito para explicar esta estranha relação entre as formigas e pulgões retratada na foto. Relação essa que, certamente, muitos devem ter já, também, observado.
Na verdade, o termo correcto para este fenómeno é denominado de "Relação ecológica".
Uma relação entre diferentes espécies em que ambas tiram, de uma ou outra forma, proveito dessa "união".
Neste caso, a explicação é simples: as formigas protegem os "estáticos" e indefesos pulgões de outros insectos porque estes segregam açucares (que transbordam pelos seus corpos) com que as primeiras se deliciam.

19 comentários:

filipe m. disse...

Caríssimo,

Excelente resumo da técnicas de "desenrascanço" de macro sem tripé! Em algumas tentativas que tenho feito, tenho adaptado o seu ponto 6 a uma técnica baseada em "focus trap", que juntamente com flash pode produzir bons resultados relativamente depressa:

- Desacoplar a focagem do botão de disparo (normalmente já faço isto por regra, e utilizo o botão de AF-ON para focar - AE-L/AF-L nas máquinas que não possuem AF-ON);

- Utilizar o modo de focagem AF-S, com "focus priority", de forma a que o obturador só é activado quando algo está devidamente focado;

- Focar a objectiva "à mão", tal como explicou no ponto 6;

- Por fim, recuar um pouco da posição de focagem perfeita, premir o obturador (a máquina não dispara, porque o objecto deverá estar desfocado), e avançar mto lentamente em direcção ao objecto. Quando a máquina estiver à distância de focagem, disparará automaticamente e a imagem deverá estar focada.

Claro que é necessário garantir que o ponto de focagem seleccionado se encontra sobre o objecto, e esta técnica resulta melhor quando se está a usar apenas a iluminação do flash, de forma a evitar a desfocagem da imagem por arrasto.

Já agora, qual foi a softbox que usou? Modelo comercial ou DIY? :)

Cumprimentos,

Filipe

José Loureiro disse...

Olá Filipe
No caso de utilizarmos objectivas motorizadas e/ou com CPU a técnica que indicou é uma boa ajuda. Por isso, para a maior parte das pessoas que usam somente objectivas macro directamente acopladas à câmara, essa é uma opção.
No caso de utilizarmos tubos de extensão, designadamente da Nikon que não têm contactos eléctricos, é que já não é possível, infelizmente, proceder assim… Ficamos limitados aos modos de exposição “M” e “A” e ainda sem possibilidade de focagem automática (que, sinceramente, acho que não faz falta nenhuma neste tipo de fotografia). Em relação à medição de luz, certos modelos de câmara, depois de introduzida a distância focal e abertura máxima da objectiva, conseguem faze-la. No caso concreto, usando a 60mm e o PK-13 indico à câmara 58mm e f/2.8. Depois é ir olhando para o histograma e “jogar” com as compensações de exposição (quer na exposição, quer na intensidade do clarão do flash).

Quanto à “Softbox” é uma pequena caixa (modelo comercial) com cerca de 13x10cm. Não tem nada a ver com as da “Lumiquest” mas dá para desenrascar…
Ao preço a que se arranjam estas mini softbox genéricas (comercializadas sob várias marcas), que se adaptam a quase todas as marcas e modelos de flash, não vale a pena estarmos a inventar e a ter trabalho na construção duma!
Claro que a resistência que têm é equivalente ao que pagamos… mas depois de montada lá vai servindo…. Ando para escrever, precisamente, acerca do uso destas softbox, há algum tempo mas a preguiça tem ganho à vontade, ehehehe…
Abraço

filipe m. disse...

Ops, realmente tinha-me esquecido do pormenor do desacoplamento devido aos tubos de extensão. Normalmente trabalho com uma Tamron 90 mm f/2.8, para reproduções máximas de 1:1, e tendo esta CPU, todas as funções automáticas funcionam perfeitamente (apesar de tal como referiu, eu também considerar que a focagem automática não é o mais apropriado para este tipo de trabalho).

A dúvida em relação à softbox prendia-se exactamente com o facto de eu andar a matutar com alguns materiais para tentar construir uma semelhante à Lumiquest LTP, mas subtraindo ao preço e adicionando o factor de gozo associado à construção de acessórios que no final até funcionam! Se nestas softboxes mais pequenas o preço dos modelos comerciais - especialmente nos baratinhos - até acaba por ser desprezável (e a relação preço/qualidade não é assim tão má), quando se começa a subir no tamanho os valores começam a disparar... a ver vamos!

Abraço,

Filipe

José Loureiro disse...

Olá Filipe
Em relação ao “projecto/desenho” para a construção duma softbox é fácil. Depois, os materiais necessários para concretizar a construção também são baratos….
Em todo o caso, em termos de custo final, não deverá poupar muito… as softbox genéricas compram-se por cerca de €10,00!
Inicialmente, porque também tenho algum gosto em fazer certas coisas “moi-même”, pensei também em construir uma…
A maior dificuldade reside no material destinado a difundir o clarão. Tem de deixar passar e espalhar de forma suave e homogénea a luz e, ao mesmo tempo, não diminuir de forma excessiva o clarão emitido pelo flash. Além disso deve “aguentar” também as inevitáveis dobragens sempre que o retiramos e guardamos…
Já agora, que material estava/está a pensar usar para difundir a luz na frente?

filipe m. disse...

Olá,

Na minha primeira experiência com uma mini-softbox (pouco maior do que a que referiu) utilizei uma folha de papel de engenharia dobrada em dois; é suficientemente translúcida para não perder muita luz, e ao mm tempo consegue fazer alguma difusão, especialmente se utilizar o painel difusor integrado do flash (o tamanho pequeno também ajuda). Para a construção exterior usei cartão leve, forrado pelo interior com folha de alumínio (toda a ajuda é pouca...), tudo mto bem colado com fita Tesa preta. Infelizmente, e devido à fragilidade dos materiais, acabei por a fazer rígida, pelo que é mto pouco portátil, apesar do baixíssimo peso.
Por preguiça ainda não fiz testes de perda ou uniformidade de distribuição de luz, mas os resultados até agora foram satisfatórios em termos de utilização.

Agora para a "LTP" ando a pensar em como conseguir articular os vários painéis (que vão necessitar de cartão um pouco mais pesado / rígido) de forma a conseguir vencer o problema da durabilidade vs. portabilidade e baixo custo. A resistência do painel frontal também é um problema, e estou a tentar pesquisar alternativas baseadas em plástico (cortina de chuveiro branca pode ser uma hipótese), ou então tentar "fortalecer" o papel de engenharia com uma "moldura" em cartão à volta da qual os painéis articulam para arrumação. Claro que no final disto tudo, o preço pode mesmo fazer com que não compense, mas ainda não desisti!

Abraço,

Filipe

José Loureiro disse...

A ideia da cortina de chuveiro branca parece-me uma óptima ideia!
Quanto às partes laterais já pensou em fazê-las de cartão de maquete de cor preta, revestindo-o interiormente da mesma maneira que pensou? É um material leve, dobrável o suficiente para se adaptar à cabeça do flash e, dada a sua construção e maior espessura que o tradicional cartão, é resistente.

filipe m. disse...

Sim, já pensei nessa hipótese, mas neste momento estava mais tentado a experimentar com cartão prensado de 2 mm (que também é bastante rígido), para tentar reduzir a espessura total quando dobrada, e já agora, o custo, numa tentativa de ver até que ponto será possível gastar o mínimo e ainda obter resultados decentes!

De qualquer forma fica registada a sugestão, e se o cartão não funcionar, será certamente uma das vias a explorar.

Marco C. disse...

boas dicas neste ponto de fotografia macro sem tripé!

pbl disse...

Alguém agradece, penhorado.

José Loureiro disse...

Não tem de quê! :)

Manuel Luis disse...

Também eu ponho em pratica esses seis pontos de aconselhamento. Raramente uso o tripé. O material que eu uso é muito fraco mas vai servindo, claro que gostaria de adquirir uma D7 por exemplo, mas existem outras prioridades e ja me sinto satisfeito.
Gosto desta pagina, muita informação preciosa.
Grato pelo seu trabalho, ficarei por aqui acompanhando.

José Loureiro disse...

Obrigado e bem-vindo!

photoattraction disse...

Grande aula e grande fotografia :)

Cícero Ferreira disse...

Estou muito agradecido pelos seus ensinamentos, tenho aprendido muito com isso. Muito grato.

José Loureiro disse...

Não tem de quê, Cícero.
Apraz-me que assim seja!

aclopes disse...

Boa tarde José
Permita-me um pequeno comentário em forma de reparação ao ponto 4. Em macro para fotografar sem tripé é aconselhado conjugar o acto de disparo com o expirar suave da respiração e assim evita-se a foto tremida. Li isto numa revista especializada e acho que tem a sua lógica. Cada fotógrafo tem os seus hábitos e métodos. Gostava da sua opinião sobre este particular. Abraço.

aclopes disse...

Aproveito para dar os parabéns pelas excelentes macros para apreciar, comparar e tirar conclusões.

Jose Loureiro disse...

Caro Lopes.
O método que descrevi é o que melhor resulta com base na minha experiência pessoal…
Mas, cada um deve por si mesmo experimentar e depois tentar adoptar o método que melhor resulte consigo próprio, Isso é certo!
No entanto, pessoalmente, prefiro o método descrito. Dessa forma tento “congelar” momentaneamente todo o movimento. Quando expiramos existe sempre algum movimento que, com algum cansaço acumulado, se reflecte na respiração e tende a aumentar esse movimento…
Há que realçar que este tipo de cuidado deve ser proporcional à relação de reprodução com que estamos a fotografar e consequentemente à distância ao objecto.
Depois, um pormenor a não esquecer: Quanto mais tempo estivermos a segurar a câmara (e restantes acessórios – Flash’s, difusores…) mais difícil se torna manter de forma precisa e estática a câmara. Portanto, uma tentativa inicial terá mais probabilidades de sucesso que uma captura ao fim de algum tempo a insistir…

aclopes disse...

Amigo Loureiro
Gostei imenso dos teus pontos de vista sobre a técnica de fazer boas macros sem tripé, concordo perfeitamente com a tua opinião porque utilizo parte dessas técnicas nas minhas macros, faço-as sem tripé. Envio-te o meu link do Flickr sobre o meu álbum de macros, se tiveres oportunidade de dar uma olhadela, gostava da tua opinião e críticas no sentido de tentar corriir erros.
Um grande abraço.
Agostinho Lopes
https://www.flickr.com/photos/aclopes50/sets/72157637259231754/